domingo, 7 de novembro de 2010
O Tempo dos Maduros
Tenho muito mais passado do que futuro. Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de jabuticabas.
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário-geral do coral.'
As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos'.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa...
Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade, caminha perto de coisas e pessoas de verdade.
O essencial faz a vida valer a pena.E para mim, basta o essencial!
Mário de Andrade (1893-1945)
Por minha amiga Ingrid- a despeito de tantas demonstrações de xenofobia na internet
Orgulho de ser NORDESTINA - Ignorante é quem discrimina...
NORDESTINO É GENTE, sim, tanto como o paulista, o carioca, o gaúcho, como qualquer outro brasileiro, de qualquer região desse país lindo e diverso que é o Brasil. No Nordeste, a gente cresce vendo miséria, desnutrição, exploração de todo tipo. Apesar de tudo, o povo do Nordeste é de uma força sem tamanho, de uma coragem inigualável, de um amor sem medidas. Quem já teve a oportunidade de ir ao interior e ver como vive o homem da caatinga, sabe que aquele povo não tem ganância nem orgulho. Para eles, a felicidade está em comer da colheita que eles mesmos plantam, em beber o leite do gado magro que eles criam, em estar com a família reunida, em compartilhar o amor. Eles mal têm o que comer, mas quando recebem alguém, oferecem o pouco que têm. Deixam de se alimentar para oferecer algo a um estranho, ainda que a única coisa que eles tenham seja um sopa de pedra. Isso mesmo, SOPA DE PEDRA. A pedra é que dá um "gostinho" à água barrenta.
O povo do Nordeste é um povo humilde e forte, que consegue ser feliz com muito pouco, que recebe brasileiros e estrangeiros de todo lugar com os braços abertos. Sou de João Pessoa, capital da Paraíba, paraíso que muitos paulistas um dia descobriram e adotaram como morada. Pergunte se algum deles quer sair de lá! É bem provável que eles convençam mais sulistas a se mudarem para o Nordeste... E depois de um tempo morando lá, é bem provável que digam: "Pense numa terra boa!", no típico estilo paraibano.
Estou escrevendo tudo isso na tentativa de diminuir a ignorância de algumas pessoas, já que muitos dos xenófobos ignorantes só têm acesso a um mundinho bem limitado e medíocre. Infelizmente, nem todo mundo tem condições de conhecer culturas diferentes in loco. Então, passam a repetir o que ouviram desde criança: que nordestino é burro, que nordestino dirige mal, que nordestino faz tudo errado. Repetem, e passam de geração a geração, termos como "paraibagem" "baianagem", "cabeça chata" etc...
Entristeceu-me profundamente a notícia de que a estudante de Direito Mayara Petruso é mais uma a incitar o ódio e a discriminação contra o Nordeste e os nordestinos em redes de relacionamento online. Incitar pessoas a "matarem nordestinos afogados pra fazer um favor a SP", sugerir que "nordestinos não devem ter direito ao voto", que para "sustentar o Nordeste é preciso afundar o Sudeste" são fruto de pura ignorância. (...) Será que ela já ouviu falar em Celso Furtado, Paulo Freire, Ariano Suassuna, Caetano Veloso, Sivuca, Chico César, dentre muitos nordestinos ilustres?
Como bem disse Euclides da Cunha, "O sertanejo (nordestino) é, antes de tudo, um forte." Eu, como mulher nordestina da Paraíba, terra de "mulher macho" (que, por sinal, muitos ignorantes também não sabem o que significa), posso confirmar essa verdade. Não importa quantas pedras nos joguem. Com pedras, nordestinos fazem sopa por falta de pão. Mas pedras também servem para construir pontes e caminhos que nos levam aonde só entram os fortes, valentes e corajosos, venham de onde vierem, sem discriminação...
Ingrid Bandeira Santos